A expulsão desumana dos Suábios do Danúbio completa 75 anos

21/10/2019

Por Klaus Pettinger*

Pontualmente à meia-noite, a adolescente suábia viu os portões da sua casa e os de todos os seus vizinhos se abrirem, um após o outro, e dezenas de carroças tomarem a rua principal do vilarejo. Naquela idade, ela ainda não tinha a dimensão correta, mas o frio rigoroso e a chuva inclemente do outono no Sudeste europeu bem que tentaram, mas não conseguiam provocar dor maior do que a sentida pelas centenas de milhares de suábios em outubro de 1944.

De dentro da carroça, a suábia percebeu que os dois cavalos da família, acostumados a arar a terra, mal conseguiam tracionar o veículo empanturrado de mantimentos. Nos dias anteriores, sua mãe e avó se desdobraram para preparar comida embutida, acomodada em latadas de banha para aumentar sua durabilidade, juntaram alguma roupa, cobertas e ração para os cavalos e se preparam para deixar sua pátria. Vizinhos servos e croatas tentaram dissuadi-las, mas as notícias vindas de localidades próximas eram assustadoras demais.

Na antiga Iugoslávia, guerrilheiros da resistência comunista, conhecidos como Partisanos de Tito, apoiados pelo avanço do Exército Vermelho, estavam dizimando povos de origem alemã, como os Suábios do Danúbio. Não poupavam crianças, mulheres ou idosos, reunidos em campos de trabalho forçado, dos quais cerca da metade não haveria de sobreviver. Durante a invasão dos vilarejos, homens eram espancados e depois executavam às centenas. Já na Hungria e Romênia, os suábios temiam o avanço do Exército Vermelho, responsável por prender e deportar milhares aos campos de trabalho forçado na Rússia.

Por pior que fosse a sensação de deixar para trás o próprio lar e os demais pertences, o pavor e a angústia da morte eram infinitamente maiores. Na noite anterior, o padre, croata, rezou a última missa. A igreja estava abarrotada. A repentina e indesejada despedida se aproximava. Quando todas as carroças se reuniram na saída do vilarejo, as igrejas começaram a ecoar longos e melancólicos badalos de despedida e lamento. Ao lado do cortejo, vizinhos acompanhavam às lágrimas o lento avanço dos cavalos. Vizinhos estes que, até antes da Segunda Guerra Mundial se davam amistosamente, mas agora sentiam que jamais tornariam a conviver.

No sótão das casas abandonadas jazia todo o trigo da última colheita; no porão, o vinho à espera de bocas que não falassem alemão. A adolescente sabia que sua mãe havia deixado as chaves nas trancas das portas abertas, soltado o gado, os suínos e o cachorro. Estavam agora todos à própria sorte. Muitos idosos desistiram ficar para trás, pois não suportariam viajar naquelas circunstancias. Tampouco sobreviveram em casa.

Além do frio, da tristeza, do medo e da insegurança, pairava sobre as centenas de carroças a incerteza em relação ao próprio destino: não sabiam exatamente para onde iam e sequer suspeitavam que estavam apenas no início de intermináveis anos de exílio. Isso, contudo, era preocupação para privilegiados – antes, era preciso se manter vivo. Assim que amanheceu, o comboio de carroças parou abruptamente e um formigueiro humano se deslocou de forma desordenada em direção ao matagal mais próximo.

Enquanto corria em meio aos berros de medo e aflição, a adolescente distinguiu o som de motores absurdamente alto vindo do céu nublado. Em seguida, calor. Sua mãe carregava a irmã mais nova no colo e a do meio segurava-se como podia no avental da primogênita. Até que um baque insuportável lançou todos ao chão gelado. Levantaram-se rapidamente e continuaram correndo. As escoriações sangravam, mas pânico era o único sentimento. Ao chegarem à mata, o pior dos mundos brotou diante dos seus olhos: a filha do meio havia desaparecido. A adolescente, desesperada, saiu em disparada atrás da irmã. Gritava seu nome, mas sua voz era apenas mais uma num mar de tormentos.

Enquanto chorava toda a angústia dos últimos dias, a adolescente se dividia entre localizar a irmã entre os feridos e remoer a raiva por conta de mais um ataque contra civis inocentes. Em meio à visão turva de ódio e medo, distinguiu um vulto franzino. Soltou um urro e correu em sua direção. Poucos metros adiante, as duas irmãs se chocaram num abraço regado a lágrimas de felicidade e alívio. Enquanto a pequena se desculpava, a adolescente a beijava.

Aquela fagulha de calor era a única que sentiriam nas geladas semanas seguintes, durante a viagem de 400 quilômetros até a Áustria. Muitas vezes dormiam em estábulos ou ao ar livre. Inúmeros idosos e grávidas não suportaram os transtornos da viagem. Os sobreviventes oriundos da Iugoslávia, Hungria e Romênia se tornaram exceção. Apesar de pouco conhecido, o genocídio do povo suábio é amplamente documentado. Centenas de milhares de suábios foram mortos, tanto nas mãos do Exército Vermelho quanto na incomplacência dos guerrilheiros comandados pelo marechal comunista Josip Broz Tito, posterior presidente da Iugoslávia, país que comandou com viés autoritário de 1953 a 1980.

A única vitória da maior guerra da História ainda não foi conquistada completamente, por se tratar da luta constante pela sobrevivência das memórias das vítimas, com o intuito esperançoso de que fatos tão extremos não se repitam. Já a adolescente, retratada nessa coluna, com base em detalhados relatos de diversos pioneiros de Entre Rios, sobreviveu não só aos conflitos bélicos, como também ao tempo. Hoje, 75 anos depois, ela é uma mulher madura, serena e forte, que a comunidade de Entre Rios continua a chamar pelo nome de batismo: vida longa à querida Cultura dos Suábios do Danúbio.

* Publicado originalmente no jornal Correio do Cidadão. Leia aqui.


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